Ameba´S Reflexões - Conto forasteiro

Conto Forasteiro

" O destino é único desfecho de vidas em comum".

     Vinha de bem longe, como também mal conhecia o caminho. Perguntava a um, a outro, recebia respostas por gestos, não por palavras, o jeitinho mais conveniente de dinamizar as relações.
     Sentou-se num banco velho, tendo como única e exclusiva companheira a mala, tão ou mais surrada que o transporte responsável por levá-lo ao destino. Perguntava: "Onde estou?", "Para onde vou?". De todas as indagações restava o sopro do vento, que afagava seu rosto com morosa cumplicidade. Ainda assim faltava algo que preenchesse o vazio oculto destinado a quem tanto incomoda-se com a incerteza. Este era o estado perturbador, conflituoso, a ponto de fazê-lo fechar os olhos e realizar a súplica inaudível. Dele para seu Senhor.
     Da janela via os montes, ao passo que admirava as formas lombares, enriquecidas pela multiforme relação das nuvens, das quais costumava tirar gatos, coelhos ou elefantes, comodamente deitado na relva ao som de gorjeios festeiros. Para ele, nada daquilo não passava de saudades, saudosismos de um tempo vivido com extrema intensidade, submerso nas águas das transformações, as quais acabam por tornar redutível certa vida que tanto se viveu.
     Sua boca, semiaberta, denunciava o torpor causado pela reminiscência repentina, inalterável e precisamente indelével. O balanço causava náuseas, nunca andara num bicho daquele. Colocava a mão sobre a fronte, ajeitava a gola da camisa, contudo o suor ainda vertia copiosamente pela pele negra, fazendo com que ele logo pegasse o lenço amarrotado do bolso. "Até quando meu Deus?!", era o que ciciava, observando o teto metálico.
     Tudo ia adiante, e para trás ficou deixado junto ao pó no caminho outro homem que existiu, cumprindo sua rota de simplicidade e segurança. Os prédios surgiam lá da janela. "Que qué isso?!". Não compreendia, apenas sabia que outras formas de vida existiam, mas como encará-las?
     Desceu com sua mala, sem rumo ou convicção, carregava a fé no peito, única defesa de cristão. Vislumbrou uma multidão, correndo sem direção, não sabia para onde ir nem para quando fugir. Tocaram levemente em seu ombro.
- Pra onde cê vai?
- Num sei não.
- Prazer...Somos companheiros sem destino.


                                                                                         Rodrigo.

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